segunda-feira, 22 de março de 2010

Por detrás de uns óculos duros,
um homem chora,
enquanto o jornal diz: morre-se por acidente de trânsito

Tantas pessoas transitam num curto espaço, fazem curto, o tempo

Nunca comeu maçãs do amor, nem soube presentear flores,
tampouco escrever poemas
(Se já, esqueceu-se)
Mas aprendeu que amava e que amar rimava também com portões altos, assinaturas
Nisso está de acordo com seu tempo, não enxerga portas na ponta do nariz

Largado em um banco, pouco olhou para os cadarços dos sapatos, gastos, gastos,
Nem para, no bolso, a carteira, metonímia vigente
Pouco percebeu um cheiro de feijoada do bar da esquina, nem namorou o único beija flor da cidade
Só via aquele Amor do lado de lá das lentes de seus óculos
E se sorria se Ele lhe acenava!
(Enquanto ela lá, só,
mais um sucesso no rádio, cheirando a suor,
os olhos, tão bonitos, presos em dois cortes assimétricos, pronta sem atinar,
os dedos rubros de brincar com rosas, um dia vai morrer)

Não sabe estar naquele banco que podia ser no meio da rua, tem os olhos grandes demais

quarta-feira, 17 de março de 2010

Repletas de sábado nos olhos
Multidões caminham, é noite
Que sopro de delícia no peito é esse,
- ninguém mais respeita a sinalização?

Quebraram a vidraça do mundo, parece
Sobem e descem da grama tanto
E há uma festa nas pernas soltas das moças
E os homens brincam de amarelinha
Na boca, na boca, pedem o esquicho do Carnaval
Ô, meu bem, será que você vem?

E, será, dormem as engrenagens fabris?
Não, o Carnaval fez a produção maior, fez até fantasmas a cinco centavos,
gentes dormem enquanto ganham as avenidas

É de se maravilhar, tamanha desenvoltura

(E soltaram os cães,
não sei se é de se fazer festa em seus pêlos
ou se é o caso de fugir de suas mandíbulas)

E soltaram uma nau no meio da rua
Ela segue, impávida, enfeitada, competente
repleta de amor livre,
Ela é o Carnaval

É de se tentar ver que rios correm por debaixo dessa nave balouçante,
dessa gangorra, o parque colorido,
Quais dedos apertam os lemes da alegria e encerram crianças nos porões?
Quais carnavais ensinam o frescor?

É de se sorrir, esse Carnaval,
e sorrio e choro e
algo se descompassa se não é uma dança da menina travestida
que passa no meio desse samba despedaçado, lindo, lindo

domingo, 14 de março de 2010

Um poeta, em seu escritório, em delírio onírico, escreve:

Srta.,
Seria possível
Como proceder
Gostaria de
Atenciosamente,

Depois encontraram-se numa sexta-feira, numa estrada larga,
esse poeta dando com os olhos dela tão despertos em sonho
E caíram dele os carimbos-metáforas todos
E a metafísica perdeu a razão
E a máquina de escrever deu uma cambalhota

Os dois deixaram nascer esse poema que não cabe num livro


Para Ge.

sábado, 13 de março de 2010

Bilhete de amor de uma mulher

Honrado Sr.,
fechei a casa, joguei a chave fora

Aqueles outrora em estado de escravidão migraram para o Sul,
impelidos por cantos irresistíveis

Se desejar, me encontre num ponto qualquer
E seja um rio qualquer
ao alcance das minhas águas

De tantas águas

O carteiro não deixou a conta de luz,
mas, que interessa?

terça-feira, 2 de março de 2010

Trecho de "Conversações: a respeito da vida selvagem", por Gyorgy Raimondi e Yane Santiago.

Y: As focas do Atlântico Norte transitam com certa dificuldade entre os arquipélagos da região. Não costumam ir muito além das cercanias, a não ser quando - o que é raro - uma foca dessas faz amizade com alguma baleia azul que atravessa o mundo em belas cantorias. As focas do Atlântico Norte têm um olhar desconfiado e sonham que as aves de rapina de bico laranja lhes assassinam, arrancando-lhes os corações, iguarias que tais aves de rapina provariam com total adoração, caso existissem. Nesse mesmo estado onírico, as focas do Atlântico Norte costumam se ver, em algum momento, a dormir nos colos das mesmas aves de rapina de bico de laranja, as quais cantam suaves cantigas de ninar. As focas do Atlântico Norte migram todos os anos para a Ilha de Lícia e nunca sabem se o fazem porque ouvem de lá algum canto atraente ou se o fazem para fugir das aves de rapina - e aí há contradições no estudo: fugiriam das fantasiosas aves de bico laranja ou das garras concretas e temidas dos falcões de bico amarelo?

Y: Ainda bem - para as focas do Atlântico Norte - que elas não são lemingues.

G: A primeira coisa que se deve saber sobre os lemingues é: eles não são suicidas. E se seus corpos tendem a naufragar no abismo das cordilheiras; e se se sentem impelidos ao nado dos afogados; e se se lançam ao chão a fim de se pisotearem; é tudo um engano de suas sinapses contorcidas. E este engano é o que assegura a portentosa ordem da vida.

G: A segunda coisa que se deve saber sobre os lemingues (e este segundo saber se relaciona ao primeiro saber) é: eles não são homossexuais. Porque as fêmeas lemingues são extraordinariamente férteis e, talvez por isso, tenham feromônios avassaladores: os machos são, por assim dizer, “flutuados” ao leito. E se os lemingues se cansam do embriagado perfume das fêmeas no cio e preferem servir à mesa dos machos, é tudo um engano de suas sinapses contorcidas. E este engano é o que assegura a portentosa e inescrupulosa ordem da vida.

G: A terceira coisa que se deve saber sobre os lemingues (e este terceiro saber se relaciona, indiretamente, ao segundo e ao primeiro saber) é: eles não hibernam. E se passam o inverno inteiro escondidos na tosca galeria que constroem, é por medo de servirem de narizes para os bonecos de neve. Estas galerias são simples corredores debaixo do chão gelado que qualquer passo enganado faz desabar; mas ninguém se preocupa com sua extinção porque são muitos, esses lemingues. O que assegura a portentosa e inescrupulosa e também orquestral ordem da vida.

G: A quarta e última coisa que se deve saber sobre os lemingues (e este saber não se relaciona a nenhum outro, nem aos próprios lemingues) é: os lemingues são animais extrardinários porém inúteis para a portentosa e inescrupulosa e também orquestral e enganosa ordem da vida e na disputa de lançamento ectoplasmático já perdem de saída porque (e aí os estudiosos se dividem) ou não há ectoplasma no lemingue ou o ectoplasma prende suas ventosas na grotesca gengivite do lemingue que se não fosse um lemingue seria um excelente competidor de lançamento ectoplasmático.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

o meu humor é tropicalista;
minha tristeza, sambolero.
já nem sei quanto de mim é desistência
e quanto é alguma transformação.
já nem sei quanto quer partir
e quanto ainda se contagia com o confete e a serpentina,
neste carnaval.
olerê, olará, o tamborim, o surdo
- todo mundo já sabe.
e o barco. o barco. o barco e o porto.
o porto e o mar. o mar chama.
copacabana e fim de mundo.
vasto vasto. grande.
se eu me chamasse alexandre.
no fim, pra alguns faz diferença, pra outros não,
afinal, as coisas são assim, dizem.
berimbau toca e manoel carlos entra em cena.
o pé esquerdo escorrega no playground,
o direito galga degraus.
sorriso de quase nuvem,
esse país quase sem nome
e esse porto que nunca chega.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Se eram sete e meia, eu ainda tinha tempo de sobra para fazer a janta, comer, tomar banho e sair, porque havia combinado com Lisa que nos encontrássemos às onze horas em frente a estação - para que depois fôssemos a algum lugar para bebermos e conversarmos -, calculando que, do apartamento à estação o tempo tomado era de cerca de cinqüenta minutos, sendo assim, calmamente apanhei os tomates, lavei-os e, de maneira que considero bastante metódica, piquei-os em cubos mais ou menos de dois por dois centímetros; já as cebolas: fi-las em pedaços bem pequenos, porque pensei que seria bom se dissolvessem, dando apenas sabor ao caldo. No caso das cenouras, pensei em rodelas bem finas, mas depois que as tinha desta forma, considerei que fazê-las em pedaços ainda menores seria mais adequado, porque eu não era tão fã assim de cenouras; o contrário do que acontecia em relação às batatas, essas sim eu preferia saborear enquanto as mastigava, bem como a carne, porém neste caso a decisão mais acertada foi deixar em pequenas fatias, para facilitar o cozimento e a degustação. O próximo passo foi fritar em azeite o alho com uma parcela da cebola, enquanto eu esquentava a água que depois derramei sobre a tal fritada, acrescentando, na seqüência, a ervilha e o milho, os quais tive de aguardar que cozinhassem um tanto, para, finalmente, despejar todos os legumes e a carne, que deixei fritando no durante entre o corte dos legumes e o cozimento da ervilha e do milho. Atentei-me ao fato de que esta tarefa vinha me tomando muito tempo, eu teria de me apressar. Logo depois pensei que seria providencial também degustar alguma bebida, e encontrei um vinho de qualidade duvidosa no armário, se não me engano, de quando Virginia viera para cá - trouxera-o à tiracolo, mas, reconhecendo a precariedade da bebida, preferiu esperar as cervejas que viriam trazidas pelas outras pessoas. O passo seguinte foi ajeitar a mesa, calmamente, e, sim, um tanto de pressa se fazia necessária, afinal, depois de tanto tempo, Lisa por fim havia aceitado meu convite para que saíssemos apenas os dois, porque eu realmente já há muito almejava me aproximar dela, pensava - sonhava -, ingenuamente, em Lisa como minha futura companheira, repleto de uma paixão quase pesarosa, e, então, sim, Lisa finalmente também me queria, eu não poderia me permitir frustrá-la! Enquanto o caldo cozinhava, fui ao meu quarto para escolher qual seria o traje mais adequado para aquela noite, e dei com meu quarda roupa em total confusão, por isso tive de ajeitar as roupas e, enquanto me envolvia neste fazer, logo deparei-me com o estado de miséria dos tapetes, tamanha a poeira instada por todos os cantos, então por que eu não varria meu quarto, o apartamento? E topei com um sujeira horrível na janela do quarto, e com um maldito lodo encrustado entre os azulejos do banheiro e com uma lâmpada que há muito eu precisava repôr, e o caldo ficou pronto e o tirei do fogo, mas logo lembrei que a manta sobre o sofá se encontrava uma imundície só e aquilo não era certo, bem como a permanência de tralhas sobre o móvel da sala e me movimentei por todo o apartamento, fazendo o que era preciso, e depois de um banho bem tomado para limpar as unhas das mãos e a sujeira dos cabelos, faltavam três minutos para as onze horas e eu ainda não havia comido e o caldo cheirava soberbamente, sentei-me à mesa, olhei para a parede, para a toalha nova, permaneci alguns minutos ali, me levantei, joguei o caldo no lixo, tirei a roupa enquanto andava pela casa, entrei, só de cuecas, no meu quarto, apaguei a luz, deitei-me na minha cama e tentei dormir.

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